domingo, 1 de outubro de 2017

Aroma de Café

Estava observando a cor do café. Sempre fazia isso antes do primeiro gole. O tom escuro do líquido lhe dava conforto mental. Era como se seus pensamentos fossem sugados para dentro da xícara e absorvidos pelo café. Aproximava a xícara do nariz para sentir com mais intensidade o cheiro delicioso do café. Era um hábito ou um ritual? Não fazia diferença. O importante era o prazer incomum que isso lhe causava e a solitude do momento.
Depois do primeiro gole, percebeu que o dia estava ganhando as mesmas cores do seu café. Era fim de tarde e o Sol poente, antes de sumir completamente, ainda banhava o ambiente com as cores rosa e laranja.
O Caffè Sabatino era um lugar simples, mas de atmosfera acolhedora. Tinha em sua arquitetura, embora não fosse ostensiva, a assinatura de uma época gloriosa para a arte. A mesa redonda e desgastada na qual estava sentado tinha riscos na superfície da madeira que eram marcas do tempo. Viu um risco que tinha o formato de um coração; pensou que pudesse ter sido feito por um casal apaixonado ou por alguém cujo sentimento nunca foi correspondido.
Ele sempre apreciou uma das facetas mais curiosas da arte. Tratava-se do fato de que — muitas vezes — quem se colocava diante de uma obra poderia interpretá-la de uma forma mais interessante do que a de quem a colocou ali.
O aroma de café combinado à solitude daquele momento era a arte da paz.

A desordem que nos une

Aqueles que,
vivem
sem fantasia
vagam
sem direção
olham
sem olhos
ébrios
perdidos
na solidão que escolheram.

Ecos do Passado

Eram 3 horas da madrugada e São Paulo estava mergulhada em uma quietude que, em poucas horas, seria quebrada pela azáfama da vida urbana. Ana tinha um sono frágil; era comum acordar por qualquer barulho. Era uma criança muito agitada que já fazia valer a filosofia Carpe Diem em sua infância. O apartamento onde morava com os pais ficava situado em um edifício de 46 anos de existência e 25 andares. Ana morava no décimo segundo andar.
O sono de Ana foi cortado depois que um estranho barulho fantasmagórico começou a ser produzido pelo vento, que passava pela fresta da janela do seu quarto. Quando ela abriu os olhos, percebeu a silhueta de um homem se formar na porta do seu quarto, que não deveria estar aberta. Como olhou rapidamente e ainda estava se sentindo sonolenta, passou as mãos nos olhos para, em seguida, olhar novamente. Não viu nada; somente a porta aberta.
O barulho fantasmagórico que o vento produzia ao passar pela janela do quarto somado à estranha visão da silhueta de um homem na porta do quarto foram suficientes para que Ana se levantasse da cama; motivada pelo desejo de confirmar que não era nada, sentia sua respiração ficar mais rápida e seus músculos enrijecerem. Correu até o interruptor próximo à porta e ligou a luz. Porém, isso não foi suficiente para acalmá-la e nem para diminuir sua vontade de saber por que a imagem da silhueta de um homem desconhecido não saia da sua mente.
A luz do quarto apagou repentinamente. Ana automaticamente levou sua mão ao interruptor que, dessa vez, não funcionou. O breu tomou conta do ambiente por alguns instantes. A escuridão perdeu um pouco da sua predominância porque entrava pelas janelas de vidro do apartamento uma lânguida quantidade de luz. Um barulho agudo parecido com unhas sendo arrastadas começou a se manifestar como se saísse de dentro das paredes do apartamento. Ana, neste momento, sentiu sua mente se perder em uma confusão interna que a impedia de saber se agia ou ficava quieta; se corria ou ficava; se gritava ou emudecia de vez. Optou pelo grito. Para isso, deu um pulo para se posicionar fora do quarto quando gritou - bem alto -, a fim de chamar a atenção dos seus pais.
O silêncio que seguiu após o grito não foi correspondido pela reação de ninguém. Ana estava apavorada e sem fôlego quando começou a sentir cheiro de carne queimada. Correu para o quarto dos pais, mas foi interrompida no meio do corredor pelo fogo que tomou conta do chão. Voltou para a frente do seu quarto quando a porta se fechou quase ferindo seu pequeno braço que estava levantado, pronto para se direcionar ao interruptor mais uma vez. O seu corpo começou a expelir suor em torrentes e os pelos do seu corpo se eriçaram.
Ana viu no meio das chamas, que tomavam o chão do corredor, surgir um corpo. Era o corpo de um homem que estava de bruços e mantinha seu rosto todo o tempo voltado para baixo; olhando para baixo, começava a engatinhar em direção a Ana. Ele parou no meio do caminho; começou a cavar e a enfiar o rosto no chão como se fosse um cachorro tentando recuperar um osso que havia escondido.
Ana paralisou e desejou com todas as forças que nada daquilo fosse verdade. Fechou os olhos e pensou em seus pais. Sentiu uma mão tocar seu rosto.
Todo o medo que sentia começou a desaparecer quando abriu os olhos. Sua mãe estava sentada na beirada da cama tentando acorda-la para ir à escola. Ana foi invadida por uma sensação de alívio enquanto despertava e ouvia sua mãe dizer categoricamente para se apressar ou se atrasaria.